Este espaço foi pensado para divulgar e discutir a Cidade de Ipu/CE de uma forma bem espontânea, através de crônicas, causos, versos, além de opiniões e comentários diversos, tanto do autor, quanto dos nossos visitantes. O blog IPU EM CRÔNICAS E VERSOS, embora com muita humildade, busca também promover as peculiaridades do Nordeste através do cordel, uma das expressões mais originais de nossa cultura. Sejam todos bem-vindos! (Ricardo Aragão)


17 de agosto de 2008

EU, MEU FILHO E UM RIACHO MORTO

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... Num futuro não tão distante.






Veja aquela marca na pedra, meu filho... ELE corria por ali!

Tá vendo aquele tronco seco? Era uma enorme árvore, mas morreu de sede. Ela era aguada por ELE! E NELE também viviam muitos peixes! Existia vida aqui, meu filho!

Papai, o que significa aquela mancha preta naquela pedra enorme?

Meu filho, aquela é uma marca da água que corria de cima daquela serra. Ali existiu uma enorme cachoeira, a quem todos chamávamos de BICA DO IPU! Ela era formada pelas águas DELE!

Quem é ELE, pai? E o que houve?

Meu filho, esta é uma longa e triste história, mas vou tentar resumi-la para você: Nesta região havia uma grande floresta, tanto em cima como embaixo dessa enorme serra que hoje é seca e quente. Era uma mata densa e úmida, cheia de vida para todos os lados! Essa exuberância toda era mantida, principalmente pela existência DELE: um córrego, que vinha lá do alto da serra e despencava daquela pedra manchada! Ele era o RIACHO IPUÇABA, meu filho, e banhava todo este vale que hoje está morto! Esse córrego formava inúmeras cachoeiras e a ELE somavam-se as águas límpidas e doces de muitas fontes! Por aqui, todas as espécies viviam na mais perfeita harmonia! Era um verdadeiro paraíso este lugar, meu filho!

E o que houve com tudo isso, pai?

Meu querido, essa história começou mais ou menos assim: há muito tempo chegaram por aqui nossos primeiros antepassados que, aos poucos, foram se multiplicando e, cada vez mais, tomando o lugar da floresta. Durante muito tempo esse povo soube conviver com a natureza, inclusive cultuaram muito a beleza daqui, sobretudo uma grande Bica que aqui existia. Muitos poetas cantaram este lugar, meu filho! Muitos artistas pintaram lindas telas da cachoeira que havia nesta pedra escura! Muitos escreveram formidáveis histórias sobre a beleza que um dia marcou isto aqui! Houve até um grande escritor que fez uma bela história desse lugar, tornando-o conhecido mundialmente: José de Alencar.

Conta a história desse escritor, que por aqui vivia uma linda índia, seu nome era Iracema e ela era conhecida como a Virgem dos Lábios de Mel. Essa índia banhava-se nas águas do riacho que existia aqui. A casa dela era naquelas pedras ali: a Casa de Pedras. Pelo menos esta, o homem não conseguiu destruir!

E o que houve com o RIACHO IPUÇABA, meu pai?





ELE MORREU, MEU FILHO!!!

Findou por descuido das pessoas que viviam aqui num passado não muito distante.
Essas pessoas achavam que o riacho poderia suportar as tantas agressões que o fizeram sofrer. Mas ele não suportou! Resistiu bravamente por alguns anos, mas não sobreviveu!

Os homens daquele tempo eram muito cruéis, não pai?

Não, meu filho. Não chegavam a ser cruéis. Apenas não souberam respeitar a natureza. Eles chegaram ao ponto (imagine!) de derrubar toda a mata que havia aqui para transformar estas terras em pomares e hortas, como também em campos e pasto para animais. Sequer respeitaram as matas ciliares ao longo do riacho que por aqui corria, muito menos souberam guardar as FONTES que o alimentavam!





Então esses homens eram burros, não pai?

Sim, meu filho! Eles foram muito burros! Pois não souberam manter a principal fonte de vida do lugar onde moravam e a valorizar a natureza que por aqui havia de forma exuberante. Imagine você, meu filho, que aqueles homens foram capazes de jogar seus esgotos, lixo e tudo o que não prestava no leito do riacho!

Nossa, pai! Então eles eram burros e cruéis, não eram?

É, meu filho... você tem razão! Aqueles homens foram muito cruéis e burros! Sua intolerância os tornou assim e isso tirou deles toda a riqueza que existia neste lugar!

Pai, você conheceu alguns desses homens maus?

Sim, meu querido filho, conheci muitos deles!

Pai... por que o senhor está chorando?!





PERDÃO, MEU FILHO!!!

Ora pai, que bobagem! Foi-se o tempo em que um homem não podia chorar.
Não precisa pedir perdão por isso!

Não, meu filho! Não é por estar chorando que lhe peço perdão... Mas por ter sido um daqueles homens! Por ter contribuído, até mesmo com minha omissão, para o fim do RIACHO IPUÇABA e de toda a vida que existia em torno dele; por ter tirado de você, meu filho, o direito e a oportunidade de conhecer a BICA DO IPU em todo o esplendor e realeza de seu VÉU DE NOIVA;

PERDÃO, MEU FILHO!!!

Perdão por não ter lhe proporcionado o prazer de tomar banho nas águas limpas e serenas desse riacho, como eu seus tios fazíamos em nosso tempo de criança. Que tempos aqueles, meu filho!!!

Como bom também foi o tempo dos meus pais e tios, quando o riacho era ainda mais limpo e bonito, num lugar chamado GANGÃO. Mas este já deixou de existir há anos!

Perdão, meu filho! Por ter sido um daqueles homens BURROS, CRUÉIS e ESTÚPIDOS que, com absurda INSENSATEZ, tirou da geração do próprio filho e das que virão, toda a superabundância de vida que existia aqui neste lugar;






Me perdoe, filho querido! Perdoe-me por deixar pra você e para meus netos apenas este LEITO SECO do que fora o belo e inesquecível RIACHO IPUÇABA!

Perdão, meu filho!!!



Ricardo Aragão
01/12/2007

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2 comentários:

Maria Celina disse...

Meu irmão!!! Esta crônica me faz chorar cada vez que a leio. Muito linda e emocionante! Parabéns!!! Tão bom seria se agente conseguisse mudar essa realidade. Deixarmos de ser "burros e cruéis", e recuperar a beleza que AINDA existe em nossa cidade.

Malu Mourão disse...

Ricardo Aragão!
Você arranca emoção e lágrimas.
Como diz sua irmã, "...se a gente conseguisse mudar esta realidade..."
Ou melhor, se a gente conseguisse deixar de ser cruel e burros por esta nossa omissão!
Lindooooooooooooo!
Beijos de afeto.
Malu