Este espaço foi pensado para divulgar e discutir a Cidade de Ipu/CE de uma forma bem espontânea, através de crônicas, causos, versos, além de opiniões e comentários diversos, tanto do autor, quanto dos nossos visitantes. O blog IPU EM CRÔNICAS E VERSOS, embora com muita humildade, busca também promover as peculiaridades do Nordeste através do cordel, uma das expressões mais originais de nossa cultura. Sejam todos bem-vindos! (Ricardo Aragão)


31 de agosto de 2008

DELMIRO GOUVEIA

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O LORDE DO SERTÃO





"O Sertão é viável, só é preciso plantar novas sementes!"


Delmiro Augusto da Cruz Gouveia nasceu no dia 5 de junho de 1863, na fazenda Boa Vista, município de IPU, Ceará, filho natural de Delmiro Porfírio de Farias e Leonilda Flora da Cruz Gouveia.

Em 1868, transferiu-se com sua mãe para a cidade de Goiana, em Pernambuco e depois de quatro anos para o Recife.

De família pobre, teve que trabalhar cedo para se manter e ajudar a mãe. Foi bilheteiro da estação Olinda do trem urbano chamado maxambomba, trabalhando também na estação de Apipucos, bairro do Recife, onde adquiriu, quando rico, um palacete que hoje é propriedade da Fundação Joaquim Nabuco, onde funciona o Instituto de Documentação. Trabalhou ainda como despachante de barcaças.

Interessado na compra e venda de couro e peles de cabras e ovelhas vai para o interior de Pernambuco, casando-se, em 1883, com Anunciada Cândida de Melo Falcão, na cidade de Pesqueira.

Dedicou-se ao comércio e exportação de couro e peles, inicialmente como empregado da família Lundgren e depois por conta própria, mantendo um grande número de compradores por toda a região Nordeste do Brasil.

Fundou, em 1896, a Casa Delmiro Gouveia & Cia, passando a destruir a concorrência no setor e ficando conhecido como o Rei das Peles.

Dispondo de capital, se engajou politicamente e partiu para outros empreendimentos. Foi o responsável pela urbanização do bairro do Derby, no Recife, onde só havia manguezais: abriu estradas, ruas, construiu casas e um grande mercado modelo sem similar no Brasil, o Mercado Coelho Cintra, com 264 compartimentos alugados a comerciantes de alimentos e de outros tipos de mercadoria, inaugurado no dia 7 de setembro de 1899.

Nota: segundo muitas opiniões, o Mercado Coelho Cintra foi o primeiro Shopping Center da Améria Latina.

Os baixos preços praticados no mercado incomodaram a concorrência, havendo por isso desentendimentos com o então prefeito do Recife, Esmeraldino Bandeira e em decorrência, conflitos com o poderoso Rosa e Silva, presidente do Senado Federal e vice-presidente da República, o que culminou com o incêndio do mercado, no início de 1900.

Hoje, após a reforma realizada em 1924, o prédio do antigo mercado abriga o quartel general da Polícia Militar de Pernambuco.

Autoritário e de temperamento difícil, à medida que enriquecia criava mais inimigos.

Em 1901, perseguido e com problemas no casamento refugiou-se durante um ano na Europa.

Separado da esposa, em 1902, aos 39 anos, raptou a adolescente Carmela Eulina do Amaral Gusmão, fugindo para Alagoas e fixando-se na Vila da Pedra, uma localidade a cerca de 280 km de Maceió e que na época só possuía seis casas. Passou a comprar e exportar couro e peles, utilizando o Porto de Jaraguá, em Mació.

Em 1909, inicia os estudos para aproveitamento econômico da cachoeira de Paulo Afonso. Em 1913, construiu no lado alagoano uma pequena usina geradora de eletricidade, puxando a rede elétrica até a sua fazenda.




Usina de Angiquinho, construída por Delmiro Golveia


Inaugurou, em 1914, uma pequena fábrica têxtil para produção de linha, com a marca Estrela, que logo dominou o mercado nacional, impondo-se também nos mercados da Argentina, Chile, Peru, depois Bolívia, Barbados e até nas Antilhas e Terra Nova.

A fábrica era um modelo de organização, com diversos pavilhões onde ficavam os teares, uma vila operária, ambulatório médico, cinema e ringue de patinação.

Não querendo ficar isolado e para ajudar no desenvolvimento das suas atividades industriais, construiu cerca de 520km de estradas carroçáveis e introduziu o automóvel no sertão.

Embarcava sua produção através de porto de Piranhas, utilizando a ferrovia que ligava Jatobá (atual Itaparica) a Piranhas para transportá-la.

Levou a energia elétrica para a povoação onde ficava a fábrica e depois até a Vila da Pedra.

Passou a idealizar e desenvolver projetos para a implantação de uma hidrelétrica que abastecesse o Recife de energia, o que causou desentendimentos com o então governador de Pernambuco, Dantas Barreto, que o acusava de estar procurando aproveitar-se do seu governo e, por isso, rompeu relações com o industrial.

Seu temperamento difícil, a tensão em que vivia, além da falta de apoio governamental, lhe trouxeram uma série de atritos, que culminaram com o seu assassinato à bala, no dia 10 de outubro de 1917, aos 54 anos de idade, no terraço da sua casa na Vila da Pedra, hoje município de Delmiro Gouveia.




Estação Ferroviária da Cidade de Delmiro Golveia-AL


Local onde foi assassinado Delmiro Gouveia



Alguns Comentários sobre Delmiro Gouveia


Gazetaweb.com

Estrela foi a mais antiga marca dos carretéis de linha produzidos na Companhia Agro Fabril Mercantil de Delmiro Gouveia. Ao chegar à terra de Delmiro, uma estrela ainda brilha neste Sertão, embora no dia 10 de outubro de 1917 um tiro certeiro tenha tentado apagá-la. Delmiro Gouveia foi assassinado, mas sua história ainda ilumina o Sertão.

A história de Delmiro é o principal atrativo da cidade. Este cidadão nasceu no Ceará, progrediu na cidade de Recife, viajou pela Europa, mas foi em Alagoas que realizou uma parte de seus sonhos. Construiu a fábrica de linhas e foi pioneiro na primeira hidrelétrica no Nordeste, utilizando a força do Rio São Francisco.

A bala atingiu todos os alagoanos, mas a história, a cidade e o Velho Chico ressuscitaram o herói do Sertão. Uma viagem a Delmiro Gouveia serve para desbravar as belezas da região que há mais de 100 anos encantou Delmiro, levando-o a escrever nestas terras áridas que o Sertão é viável, só é preciso plantar novas sementes.


Sinopse do filme "Coronel Delmiro Gouveia" (1978)

Em fins do século passado, no Recife, Delmiro Gouveia, rico comerciante e exportador, sofre perseguições políticas por suas idéias. Falido e perseguido pela polícia do Estado, Delmiro Golveia refugia-se no sertão, sob a proteção do coronel Ulisses, levando consigo uma enteada do governador. No sertão, Delmiro reinicia suas atividade de exportador de couros e monta uma fábrica de linhas de costura, aproveitando a energia elétrica de uma usina que constrói na cachoeira de Paulo Afonso. A Grande Guerra de 1914, impedindo a chegada dos produtos ingleses à América do Sul, garante a Delmiro a conquista do mercado. Os ingleses da Machine Cottons, ex-senhores absolutos do mercado, enviam emissários para negociar. Delmiro nega-se a vender a fábrica ou associar-se. É assassinado em outubro de 1917. Anos mais tarde, em 1929, a fábrica é adquirida pelos ingleses, desmontada e suas peças lançadas nas corredeiras de Paulo Afonso.


Site da Fundação Joaquim Nabuco

Por volta de 1910, o legendário industrial Delmiro Gouveia conseguia aproveitar a força da cachoeira de Paulo Afonso, e construía uma usina hidrelétrica. Para tanto, encabeçou a criação de uma empresa de capital misto, juntamente com um milionário e um engenheiro norte-americanos e, como o primeiro passo, adquiriu as terras localizadas nas margens da cachoeira, do lado alagoano, incorporando-as ao domínio privado.

Em seguida, conseguiu obter vários privilégios do Governo, entre os quais o direito de explorar as terras improdutivas em Água Branca, Alagoas; a concessão para captar o potencial hidrelétrico da cachoeira de Paulo Afonso e produzir eletricidade; e a isenção de impostos referentes à sua fábrica de linhas de costura Estrela, na localidade de Pedra, situada a 23 km da cachoeira. Entre 1910 e 1911, todos essas concessões foram transformadas em decretos-lei pelo Estado de Alagoas e, desse modo, através dos esforços de Delmiro Gouveia, era construída Angiquinho, a primeira usina hidrelétrica.

Para gerir os seus empreendimentos, o industrial tornou a pleitear, junto aos Estados nordestinos, concessões adicionais e isenções de impostos. Vale ressaltar que, em se tratando de Pernambuco, o General Dantas Barreto (o governador, na época) negou aqueles pleitos, alegando que eles eram lesivos aos interesses do Estado. A despeito da negativa, entretanto, Delmiro Gouveia levava adiante o seu projeto e, no dia 26 de janeiro de 1913, Pedra já possuía energia elétrica fornecida pela cachoeira de Paulo Afonso. A usina de Angiquinho continha três turbinas a uma altura de 42 metros, com tensão de 3.000 volts, sendo a primeira de 175 kVA, a segunda de 450 kVA e, a última, de 625 kVA.

Poucos anos depois, em 1917, vale lembrar, enquanto lia jornal na varanda de sua casa, alguns pistoleiros matavam o pioneiro da energia elétrica do Nordeste do Brasil. E em uma justa homenagem prestada pelo Governo de Alagoas, algumas décadas após aquele incidente, a antiga localidade de Pedra passava a denominar-se cidade Delmiro Gouveia.


Portal da Cidade de Paulo Afonso

Em toda a história da região, nenhuma das figuras foi mais importante que Delmiro Golveia, pois ele enxergou no rio a possibilidade de exploração do potencial energético da Cachoeira, aliado a um programa de desenvolvimento da região, com a construção da Usina Angiquinho em 1913, de onde saiam 1.500 HP de energia que alimentavam a Companhia Agro-Fabril Mercantil e a vila de operários no município de Pedras (atual Delmiro Golveia) do lado Alagoano da Cachoeira, trazendo o progresso para a região, mas os planos de Delmiro acabaram sufocados por interesses estrangeiros e pelo desafeto político, em 1917 foi assassinado, aos 54 anos. Seu projeto inovador serviria 40 anos depois como modelo para a construção do complexo Hidrelétrico de Paulo Afonso.


Matéria publicada no site da AFAI em 10/10/07
(http://www.ipu-ce.com/noticias.php?idnoticia=110)


Compilação e Edição
Ricardo Aragão


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3 comentários:

jpMourão disse...

Amigo RICARDO..
Saudações de sucesso!

PARABÉNS. DELMIRO MERECE SER SEMPRE LEMBRADO.

Sinceramente,
jpMourão

Dalinha Catunda disse...

Olá Ricardo,
É muito bom passar em seu blog e beber na fonte da cultura nordestina. Você tem feito ótimos resgates. Nunca é demais trazer para o presente o brilho do passado. Devíamos aprender na escola a vida de Delmiro Gouveia.
Parabéns pelo blog,
Um abraço,
Dalinha

José Elias disse...

Conhecendo um pouco das cidades que margeiam o rio São Fco, através do google earth, deparei com cidade de Belmiro Gouveia, pesquisei pra saber de quem se tratava. Encontrei no seu Blog as resposta que precisava. Parabéns pela iniciativa. Abraço. José Elias, Sombrio - SC.